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O preço da oportunidade

Jovens Liberais

A liberdade de poder escolher onde viver é um privilégio que nem todos têm. Felizmente tive a sorte de o poder ter. Há poucas semanas deixei Lisboa para começar uma nova fase da minha vida na Dinamarca. Vim para trabalhar e tirar o Mestrado e, com isso, dar os primeiros passos na minha independência financeira e profissional. Em Portugal, essa jornada teria sido bem diferente.

Na Dinamarca, o ensino superior é gratuito. Para além disso, os estudantes europeus que trabalham pelo menos 12 horas por semana têm direito ao Statens Uddannelsesstøtte (SU), um apoio mensal de 6.400 DKK (cerca de 860€) que, somado a um salário em part-time, permite cobrir o custo de vida sem qualquer dificuldade. Aqui, um estudante que trabalha algumas horas por semana num café pode receber mais do que um jovem qualificado a full-time em Portugal. A renda não é muito diferente da de Lisboa ou do Porto, mas o peso que representa na vida de um jovem recém-formado é incomparavelmente menor.

Importa perceber como é que a Dinamarca chegou a este ponto e porque é que Portugal continua tão distante desta realidade. Para muitos, a resposta óbvia seria que o Estado dinamarquês é simplesmente mais generoso, que há uma cultura diferente de proteção social. Mas essa resposta ignora um detalhe essencial: a Dinamarca pode permitir-se a este nível de apoio porque, primeiro, criou riqueza suficiente para o sustentar.

Até aos anos 60, o modelo dinamarquês era bem diferente do que o que conhecemos hoje. Durante mais de um século, o país seguiu uma estratégia de crescimento económico assente no livre comércio, na proteção da propriedade privada e na contenção do peso do Estado. Uma economia de mercado aberta, com pouca intervenção governamental, impostos relativamente baixos e contas públicas equilibradas. O crescimento veio antes da redistribuição – e foi esse crescimento que tornou possível o Estado Social dinamarquês.

Portugal seguiu o caminho inverso. A despesa pública cresceu antes da economia estar preparada para a sustentar. Criou-se um Estado Social sem que o setor privado tivesse espaço para crescer e gerar riqueza. Hoje, o esforço fiscal em Portugal é o 3º mais alto da UE, penalizando o trabalho e o investimento. O resultado? Um país onde um jovem licenciado dificilmente consegue ser independente, onde os salários reais continuam estagnados e onde a melhor opção para muitos acaba por ser emigrar.

Na Dinamarca, a liberdade económica e o Estado Social não são conceitos opostos – são dois lados da mesma moeda. O que permite um sistema de ensino acessível e apoios à transição para a vida adulta não é uma máquina estatal insustentável, mas uma economia dinâmica que gera os recursos necessários para os financiar. A diferença não está em querer um Estado Social mais forte ou mais fraco, mas em perceber que ele só pode existir se houver um setor privado suficientemente robusto para o suportar.

O preço da oportunidade não está apenas nas propinas, nos apoios ou nos salários. Está nas escolhas que um país faz décadas antes e que determinam se um jovem que quer estudar e começar a vida adulta o pode fazer sem comprometer o seu futuro. A Dinamarca fez essa escolha. Portugal ainda não.

O preço da oportunidade
Manuel Branco 9 de março de 2025
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