A política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump voltou a ser um problema para a Europa e, sobretudo, para a Ucrânia. Durante anos, os europeus habituaram-se à ideia de que, apesar das diferenças políticas entre administrações americanas, o apoio à segurança do continente e à defesa da democracia contra ameaças externas era um dado adquirido. Com Trump, essa ilusão desapareceu. O seu regresso à Casa Branca está a confirmar os piores receios: um líder errático, profundamente cínico e sem qualquer sentido estratégico, pronto a trocar décadas de alianças sólidas por uma negociação de bastidores que apenas favorece um país — e esse país não é a Ucrânia, nem os Estados Unidos. É a Rússia.
Trump já deixou claro que não tem qualquer interesse em garantir a vitória da Ucrânia. Pelo contrário, a sua obsessão com Vladimir Putin e o seu desprezo pelos compromissos internacionais colocam a segurança europeia em risco direto. A decisão de suspender a ajuda militar a Kyiv, condicionando-a à "vontade" de Zelensky em negociar um acordo de paz, é um insulto a um país que luta pela sua sobrevivência. Negociar o quê? A capitulação da Ucrânia? A entrega de território soberano a um regime que invadiu, massacrou civis e destruiu cidades inteiras? A história já nos ensinou o que acontece quando se apazigua ditadores. A ilusão de que Putin parará se lhe derem um pedaço da Ucrânia é tão absurda como foi acreditar que Hitler ficaria satisfeito depois da anexação dos Sudetas. A complacência de Trump em relação ao Kremlin não é uma novidade, mas desta vez pode ter consequências catastróficas.
A questão fundamental é que Trump não olha para a guerra na Ucrânia como um problema geopolítico sério, mas sim como um instrumento de chantagem política. Trump já deu sinais de que está disposto a usar a segurança europeia como moeda de troca em negociações futuras, possivelmente para forçar os aliados a aceitar termos comerciais mais favoráveis para os EUA ou até para garantir que a NATO passe a operar sob novas regras definidas ao sabor da sua agenda errática. Esta postura não só enfraquece a posição dos EUA no mundo como descredibiliza décadas de esforços diplomáticos e militares que garantiram a estabilidade da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O pior não é apenas Trump sugerir que a Ucrânia deve ceder. O pior é que, ao fazê-lo, está a enfraquecer toda a posição do Ocidente perante autocratas e regimes expansionistas. Se os EUA abdicam da sua liderança e deixam a Ucrânia à mercê da agressão russa, o recado que passam a Pequim, Teerão e outros inimigos da democracia é claro: a força compensa, e as democracias são demasiado fracas para defender os seus aliados. A questão já nem sequer é apenas a Ucrânia. Taiwan será o próximo alvo do apetite imperialista se o Ocidente der sinais de fraqueza. Trump, com o seu populismo incoerente e o seu desprezo pelos aliados históricos da América, não só está a trair a Ucrânia como está a comprometer décadas de estabilidade global.
A Europa tem, portanto, duas escolhas. Pode continuar a agir como uma entidade dependente, esperando ingenuamente que Trump mude de ideias ou que os EUA voltem a ser um parceiro fiável em 2029. Ou pode finalmente assumir que o futuro da sua segurança tem de estar nas suas próprias mãos. O tempo das ilusões acabou. A resposta europeia tem de ser inequívoca e imediata: investir na sua defesa, garantir que a Ucrânia recebe os meios para vencer esta guerra e demonstrar que as democracias europeias não aceitam ser reféns dos caprichos de Washington. O aumento do orçamento militar da União Europeia, agora finalmente discutido com seriedade, é um primeiro passo, mas insuficiente se não for acompanhado de uma verdadeira estratégia de autonomia militar. Se Trump quer deixar a Europa entregue a si mesma, que assim seja. Mas a Europa tem de mostrar que está preparada.
Infelizmente, ainda há demasiados líderes europeus que não parecem compreender o que está em jogo. Há quem continue a acreditar que a NATO, tal como a conhecemos, pode sobreviver a mais quatro anos de Trump. Há quem insista na ideia de que os Estados Unidos, independentemente do presidente que tenham, nunca abandonarão os seus aliados. E há ainda aqueles que, por mero cálculo eleitoral interno, preferem manter uma postura de falsa neutralidade, fingindo que a guerra na Ucrânia não afeta diretamente a segurança de todos os europeus. Mas ignorar a realidade nunca foi uma estratégia de sucesso. A Europa precisa de agir antes que seja tarde.
A guerra na Ucrânia não é um problema distante. É um teste decisivo para o futuro do continente. O que está em jogo não é apenas a integridade territorial ucraniana, mas a própria credibilidade do Ocidente. Se permitirmos que um tirano como Putin vença, se aceitarmos que um exército invasor pode redesenhar fronteiras pela força, estaremos a aceitar um novo paradigma onde a lei do mais forte substitui a ordem internacional baseada em regras. E nesse mundo, a Europa será sempre a parte mais fraca.
A resposta não pode ser apenas económica. É evidente que a ajuda financeira e o fornecimento de equipamento militar são fundamentais para manter a resistência ucraniana, mas a Europa precisa de ir mais longe. É preciso garantir que as sanções contra a Rússia continuam a ser aplicadas sem hesitação, que os fundos russos congelados são utilizados para reconstruir a Ucrânia e que os países europeus deixam de financiar indiretamente a máquina de guerra de Putin através da compra de gás e petróleo russos. O regime de Moscovo só conseguirá prolongar esta guerra enquanto tiver recursos para o fazer, e cabe à Europa garantir que esses recursos desaparecem.
É tempo de parar de fingir que Trump é um aliado confiável. Trump não defende os valores democráticos, não respeita os aliados da América e não vê a Rússia como uma ameaça, mas sim como um parceiro para os seus jogos de poder. E quanto mais depressa a Europa agir em conformidade, melhor. A defesa da Ucrânia é a defesa da Europa. E se há uma coisa que a história nos ensinou, é que quando a Europa ignora os avisos e hesita em agir, o preço a pagar acaba por ser muito mais elevado.