A política tem de ser um espaço para todos, independentemente do género, representativo do que é a sociedade.
Dia 8 de Março celebra-se o Dia Internacional da Mulher, um dia que deve servir de reflexão da atualidade. Existe o hábito de tornar este dia em algo que celebra as mulheres e o feminino, distribuindo-se flores pelos locais, no entanto estes pequenos atos, apesar de agradáveis, nada acrescentam. O Dia da Mulher deve ser um dia em que se reflete sobre o que já foi conquistado e o que ainda há para conquistar e melhorar na sociedade. A igualdade de género é algo que beneficia todos e não apenas o sexo feminino, e, apesar dos avanços serem mais que notórios, existe um caminho ainda a ser feito em diversas áreas e mentalidades que podem evoluir com a desmitificação de certos “factos”. Atentemos o caso da política, uma área em que ainda persistem muitos mitos, o que pode gerar receios em participar ou intervir, enquanto cidadão comum.
Uma investigação relativa à militância em partidos políticos, realizada por Paula Espírito Santo e Marco Lisi, em 2017, revelou que 74,5% dos militantes de partidos eram homens, ou seja, apenas 25,5% dos militantes dos partidos em estudo eram mulheres. Examinando esta investigação, é fácil aferir que o número de mulheres com participação política até à data era reduzido. Mas será que este cenário se mantém? Embora, à primeira vista, esta questão pareça ter melhorado, considero que ainda há um longo caminho a percorrer para que a participação de mulheres na política aumente. Esta é uma questão que deve levantar algum tipo de reflexão, já que ainda existe uma grande disparidade na participação política entre homens e mulheres. Porque será que existe um número reduzido de participação política por parte do sexo feminino, quando comparado com o sexo masculino?
De forma subjetiva, considero que a política se pode afigurar como um ambiente desafiante e até mesmo hostil aos olhos de uma mulher. Trata-se de um meio onde a presença masculina continua a ser dominante, o que pode, por si só, contribuir para alguma hesitação ou inibição de algumas mulheres na entrada na vida política. Além disso, considero que a sociedade ainda impõe desafios acrescidos às mulheres, seja pelas desigualdades no mercado de trabalho, e, na necessidade de conciliar diferentes responsabilidades que muitas das vezes não são exigidas aos homens, como na exposição a dinâmicas de poder, que em alguns contextos, pode dar lugar a situações de assédio, embora este último possa ocorrer a qualquer pessoa. Acresce ainda que a atividade política exige uma grande dedicação e total foco, o que se reflete num grau de exigência elevado e numa carga horária muito intensa. Tais fatores podem não ser tão compatíveis com a vida familiar como desejáveis, pois ainda existe, erradamente, o hábito intrínseco de colocar o peso da vida familiar na mulher, enquanto mãe e dona de casa.
Todos estes fatores podem igualmente dificultar a possibilidade de prosperar, limitando o crescimento. Para que isso mude, é imprescindível que a sociedade continue a evoluir, especialmente no que diz respeito à forma como se perceciona e encara o papel da mulher. O mercado de trabalho, por exemplo, ainda vê a maternidade como um obstáculo na progressão da carreira, o que não deve acontecer. Também é fundamental promover uma distribuição mais equitativa das tarefas domésticas e reforçar a importância de uma responsabilidade partilhada e ativa dos pais na educação dos filhos. Só com estas mudanças estruturais será possível criar condições para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens – na política ou em qualquer outra área. Este cenário demonstra a necessidade de avançar. Não é, então, surpreendente que a política possa aparentar ser uma área menos atrativa e pouca acolhedora para as mulheres. Contudo, a política tem de ser um espaço para todos, independentemente do género, representativo do que é a sociedade.
Deste modo, importa desmistificar a ideia de que a menor participação feminina na política se deve a falta de interesse ou falta de aptidão. Pelo contrário, são os obstáculos estruturais que justificam este fenómeno e evidenciam a necessidade de incentivar mais mulheres a entrarem na política. Como mulher, é-me intuitivo afirmar que: Não, as mulheres não têm menos aptidão política. Não, as mulheres não têm menos interesse na sociedade. Não, as mulheres não têm menos curiosidade política. Sim, as mulheres têm tudo o que qualquer indivíduo possa ter. Na realidade, ao restringirmos a entrada de determinado género, ainda que indiretamente, estamos a reduzir a possibilidade de escolher indivíduos com mais qualidade, pois a verdadeira qualidade não depende do género. Inibir a participação feminina representa um desperdício de potencial, comprometendo a qualidade. A política só enriquece conforme mais indivíduos decidem contribuir de forma ativa e qualificada.
Contudo, identificar um problema por si só não é suficiente para o resolver. É importante reconhecer que, apesar dos desafios, houve um progresso significativo, embora gradual, relativamente à presença de mulheres na política. Com o decorrer dos anos, observámos algumas conquistas: em 1979, Maria de Lourdes Pintasilgo foi a primeira e única mulher a exercer o cargo de Primeira-ministra, e, posteriormente, em 1986, a primeira mulher a candidatar-se à Presidência da República. Em 2008, Manuela Ferreira Leite foi a primeira mulher a ser líder de um dos principais partidos portugueses. Em 2011, Assunção Esteves foi a primeira mulher a ser Presidente da Assembleia da República. Até à data, apenas 6 mulheres se candidataram à Presidência da República, destacando-se Ana Gomes, que, em 2021, obteve o 2.º lugar na corrida a Belém, atrás de Marcelo Rebelo de Sousa.
Recentemente, Mariana Leitão anunciou que se irá candidatar à Presidência, algo que me entusiasmou, não só por ser uma candidata mulher, mas, definitivamente, pela grande qualidade que possui e excelente trabalho que tem vindo a desenvolver ao longos dos anos. Este deve ser um grande exemplo e incentivo para que mais mulheres observem a política com outros olhos e vejam que este é um espaço para todos. Independentemente da filiação partidária e deste ser um ambiente com mais homens, qualquer indivíduo se deve sentir confortável na política, homem ou mulher. Devemos quebrar este estigma, dando a conhecer o verdadeiro espaço político, em que todos os que tenham interesse ou até mesmo uma pequena curiosidade são bem-vindos.
Assim, deixo a nota para qualquer mulher que esteja a ler este artigo e tenha interesse ou até curiosidade na vida política: coloquem os receios de lado, este é um espaço livre e aberto. A política é para todos, desde os mais jovens aos mais velhos, desde as mulheres aos homens.