Quem é, afinal, o ídolo argentino de uma certa casta “liberal” que tenta transformar a IL num CDS 2.0?
Vamos diretos ao assunto. Não troco a reforma do Estado pela dignidade de uma mulher. Não vendo uma vítima de violência doméstica pela redução de impostos. Não aceito a submissão de um homossexual em nome do combate à inflação. Talvez por isso, e ao contrário de outros com quem tenho a infelicidade de partilhar partido, jamais vestiria uma camisola da Argentina com “Milei” escrito nas costas. Não vale tudo em nome da receita liberal contra a pobreza socialista.
Alguma coisa está errada quando, na convenção de um partido que se diz liberal em toda a linha, aparece gente de motosserra a defender a receita de um alucinado indiferente às mais elementares liberdades individuais. Se este é um cenário só por si preocupante, o que dizer de um deputado “liberal” que elogia o “movimento cultural” de Javier Milei? Para Bernardo Blanco, o voto num ultraconservador populista é “óbvio” e “não há qualquer dúvida”. Palavras do próprio.
Mas quem é, afinal, o ídolo argentino de uma certa casta “liberal” que tenta transformar a IL num CDS 2.0? Um ultraconservador populista, inimigo das Nações Unidas, negacionista das alterações climáticas, que abriu guerra à imigração e às mulheres vítimas de violência doméstica, associou a homossexualidade à pedofilia e quer criminalizar o aborto. Um liberal, portanto, na cabeça de um conjunto de rapazolas para quem o liberalismo começa e acaba nos limites das suas carteiras.
Começam a faltar palavras para classificar tamanho desprezo pela declaração de princípios do partido. Uma atitude alimentada pela liderança que vê no wokismo, segurança e imigração os principais problemas do país. Aliás, na sequência da convenção, Rui Rocha conseguiu o impensável: colocar vários jornalistas a questionarem a evidente guinada ideológica. “Não está a Iniciativa Liberal a tornar-se um partido de direita populista?”, perguntaram a Mariana Leitão duas jornalistas, de duas estações de televisão diferentes, em dois dias consecutivos.
Só não vê quem não quer. De uma vez por todas, dirigentes e deputados não podem continuar a confundir a sua cabeça com o coração do partido. Se a voz de uns começa a ser demasiado desagradável, o silêncio de outros pode ser confundido com conivência. A Iniciativa Liberal não nasceu para ser conservadora e populista. Resistente a qualquer deriva ideológica, a IL deve manter-se liberal nos costumes, humanista e defensora de todas as liberdades. Está escrito na declaração de princípios disponível online. Em vez de perderem tempo a vestir camisolas ou a fazer juras de amor eterno a um ultraconservador, alguns “liberais” podiam reler aquilo que prometeram defender, os fundamentos ideológicos do partido.
E Milei? Afuera!
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Imagem: World Economic Forum/Ciaran McCrickard sob licença CC BY-NC-SA 2.0