Enquanto o continente discute como evitar uma catástrofe geopolítica, Lisboa está absorvida numa crise política interna que não deveria ofuscar a urgência dos desafios internacionais que enfrentamos.
Se há um traço que define a política portuguesa, é a sua capacidade de repetir os mesmos erros como se nada tivesse mudado. Enquanto a Europa se reorganiza perante o colapso da segurança transatlântica, Portugal continua preso num ciclo interminável de crises políticas caseiras, sem visão estratégica para o futuro. Como no filme Groundhog Day, onde Bill Murray revive o mesmo dia vezes sem conta, também por cá assistimos, eleição após eleição, às mesmas promessas, aos mesmos debates estéreis e à mesma incapacidade de reconhecer que o mundo mudou. E enquanto insistimos nesta repetição absurda, o tempo para agir escapa-nos.
O mundo vive um dos momentos mais críticos desde o final da Guerra Fria. A invasão da Ucrânia pela Rússia não foi apenas um ataque a um país soberano, mas um teste à determinação do Ocidente. A Europa, durante décadas acomodada sob o guarda-chuva da NATO e da protecção americana, vê-se agora forçada a encarar uma realidade desconfortável: a sua própria segurança depende de si mesma. As palavras de Emmanuel Macron de que a Europa deve estar preparada para defender a Ucrânia, mesmo sem os Estados Unidos, não são uma bravata diplomática, mas um alerta existencial.
Donald Trump, que regressou à Casa Branca com uma visão isolacionista reforçada, já deixou claro que os europeus terão de se defender sozinhos. A sua administração suspendeu a ajuda militar e de inteligência à Ucrânia, e os seus discursos sugerem um distanciamento crescente dos compromissos de segurança transatlânticos. A Europa, que durante décadas viveu na ilusão de que poderia continuar a reduzir os seus orçamentos militares e confiar no apoio americano, agora corre contra o tempo para rearmar-se. A Comissão Europeia já lançou o programa “ReArm Europe”, prevendo 800 mil milhões de euros para modernizar a defesa do continente. Mas será suficiente? E, mais importante, será a tempo?
Enquanto os europeus tentam recuperar décadas de desinvestimento militar, os ucranianos continuam a lutar, cada vez mais dependentes da ajuda europeia, que nunca foi suficiente para substituir a capacidade logística e militar dos EUA. A hesitação europeia, o bloqueio de ajudas por parte de alguns Estados-membros e a falta de uma verdadeira política de defesa comum deixam a Ucrânia numa posição cada vez mais frágil. Se Kyiv cair, a Europa enfrentará uma nova realidade geopolítica: uma Rússia encorajada, uma NATO enfraquecida e uma ameaça directa às fronteiras orientais da União Europeia.
O que está em causa não é apenas a Ucrânia, mas a credibilidade da Europa como um bloco geopolítico relevante. Durante décadas, os países europeus puderam dar-se ao luxo de reduzir os seus orçamentos militares, confiando na protecção garantida pelos EUA e na ordem internacional baseada em regras. Essa ordem, no entanto, está a desmoronar-se. A Europa já percebeu que não pode depender exclusivamente de terceiros para garantir a sua segurança e está a agir em conformidade.
E onde está Portugal neste debate? Em lugar nenhum! Enquanto o continente discute como evitar uma catástrofe geopolítica, Lisboa está absorvida numa crise política interna que não deveria ofuscar a urgência dos desafios internacionais que enfrentamos. O governo de Luís Montenegro enfrenta um escândalo envolvendo negócios familiares e contratos pouco transparentes. A crise política que daí resulta tem consequências institucionais, mas não deveria desfocar ou paralisar o país num momento de desafios existenciais para a Europa e o Ocidente.
A diferença entre Portugal e o resto da Europa é simples: enquanto lá fora se debate o futuro da segurança do continente, por cá discute-se uma moção de confiança. Enquanto lá fora se pensa nos desafios comuns, por cá discute-se questões internas. Não se trata de ignorar a importância da transparência e da ética na governação, mas sim de compreender que o tempo político nacional não pode estar completamente alheado da realidade internacional. Portugal não tem margem para mais uma crise auto-infligida num momento em que o mundo enfrenta desafios tão sérios.
O PS e os partidos da esquerda, que tanto falam em estabilidade e responsabilidade quando lhes convém, agora alinham-se numa estratégia que não resolve os problemas do país, mas que apenas os prolonga. Durante anos, foram cúmplices de um subfinanciamento crónico da defesa nacional, ignorando a necessidade de Portugal reforçar a sua capacidade militar e os seus compromissos na NATO. Agora, preferem assistir ao caos institucional em vez de assumirem uma posição de responsabilidade. Enquanto o PS embarca na deriva irresponsável, Bloco e PCP sorriem cinicamente perante o momento de fragilidade da NATO.
Do outro lado do espectro, o Chega apresenta-se como o arauto da mudança, mas é incapaz de oferecer qualquer visão estratégica para o país e presenteia os portugueses com casos que demonstram a sua hipocrisia. Não tem propostas estruturais para a política externa, não tem um plano para a defesa e, pior ainda, muitas vezes alinha-se com posições que beneficiam directa ou indirectamente a Rússia. O partido navega na insatisfação popular sem qualquer compromisso real com as questões que determinarão o futuro de Portugal e da Europa. O populismo é sempre uma ilusão perigosa, uma promessa vazia que se alimenta da indignação mas nunca a resolve. Não procura soluções, apenas amplifica problemas para se perpetuar, oferecendo inimigos em vez de respostas, caos em vez de mudança.
Portugal tem tido uma política externa passiva e errática. Enquanto países europeus já estão a redefinir a sua estratégia de defesa e a investir no seu potencial militar, o debate por cá continua a ser burocrático e desfasado da realidade. O argumento de que não há margem para investir na defesa ignora a realidade de que adiar esse esforço apenas tornará a factura mais pesada no futuro. A segurança não é um luxo, é um pilar essencial da soberania e da estabilidade nacional. Não podemos continuar a ser o país que gasta milhões em sectores pouco estratégicos enquanto ignora a sua defesa e as suas responsabilidades internacionais.
O mundo mudou e Portugal não pode continuar a agir como se estivesse preso no passado ou numa segura neutralidade. Não somos um império, mas também não podemos ser o Estado mais irrelevante da Europa ocidental. Precisamos de fazer escolhas difíceis. Temos de as fazer. Precisamos de líderes que saibam enfrentar os desafios e que tenham coragem para tomar decisões impopulares, mas necessárias. Precisamos de responsabilidade, de visão, de acção, de acelerar Portugal!
O que está em jogo não é apenas a nossa reputação ou o nosso lugar na diplomacia europeia. O que está em jogo é a nossa segurança, o nosso futuro, o nosso modo de vida. Se não começarmos a agir agora, seremos condenados a seguir as decisões dos outros, sem qualquer capacidade de influência. A História não espera. O futuro pertence aos que ousam moldá-lo. Portugal tem de decidir: quer ser um actor relevante ou uma nota de rodapé na política internacional?
Adaptar-se ou perecer, agora como sempre, é o imperativo inexorável da natureza. O tempo está a esgotar-se e, quando finalmente despertarmos para a nova realidade do mundo, pode já ser tarde demais.
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Imagem: Columbia Pictures, utilizada para fins de crítica