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Este País não é para Velhos, aproveite a reforma Almirante

Opinião de Diogo Drummond Borges no Observador

Este país não devia ser para velhos argumentos, mas para quem tem a ousadia de construir um novo futuro.


O Almirante Gouveia e Melo conquistou o respeito nacional pela forma como coordenou a campanha de vacinação contra a COVID-19 em Portugal. É verdade que o termo de comparação era a gestão socialista, notoriamente ineficaz, mas isso não diminui o mérito da sua liderança naquele momento crucial, onde alguém com um com o mínimo de competência faria melhor que os quadros socialistas.

No entanto, as suas recentes declarações sobre a retenção de talento jovem em Portugal merecem uma análise crítica. Quando o Almirante sugere que os jovens devem privilegiar desafios e a superação de limites, mesmo que isso implique aceitar salários inferiores e condições menos competitivas, revela uma visão ultrapassada que ignora as reais necessidades das novas gerações. O “vestir a camisola”, por mais nobre que pareça, não paga as contas, não sustenta famílias e, acima de tudo, não cria as condições de dignidade e prosperidade que qualquer cidadão merece.

É particularmente irónico que fala como se fosse um perito em retenção de talentos, mas não menciona os desafios enfrentados pelas próprias Forças Armadas nesta matéria durante o seu mandato como Chefe do Estado-Maior da Armada. Além disso, algumas das suas decisões administrativas levantam questões sobre a sua própria adesão aos princípios meritocráticos que defende – basta considerar a polémica dos 215 mil euros em ajustes diretos para farinheiras e presunto. E podíamos ainda divagar sobre os navios que se afundam enquanto estão atracados, mas esse não é o foco deste artigo.

O verdadeiro desafio de Portugal não está na falta de talento ou capacidade de superação dos seus jovens. O problema central está na ausência de políticas públicas robustas que permitam aos jovens prosperar no seu próprio país. O discurso do “vestir a camisola” soa vazio quando confrontado com a realidade de salários que mal cobrem as necessidades básicas, contratos precários e custos de habitação incomportáveis. Ao invés de exigir que aceitem sacrifícios individuais para se sentirem “desafiados”, precisamos de líderes que trabalhem para alterar o status quo e oferecer oportunidades reais: salários justos, incentivo ao empreendedorismo e uma economia que valorize a inovação.

É fácil romantizar o sacrifício quando não se vive na precariedade. O progresso de uma nação não pode depender apenas do esforço e resiliência pessoal dos seus cidadãos enquanto as estruturas fundamentais da sociedade permanecem fragilizadas. Esta lógica apenas alimenta ciclos de precariedade, fuga de cérebros e desilusão, agravando o fosso entre quem pode e quem não pode investir no seu futuro.

Gouveia e Melo apresentou-se recentemente ao país numa entrevista onde se posicionou entre o socialismo e a social-democracia – ou seja, a mesma linha política que tem dominado Portugal nas últimas décadas. Sem uma ideia verdadeiramente transformadora ou uma visão arrojada para o futuro, a sua abordagem não traz qualquer sinal de mudança para aqueles que anseiam por um novo rumo para Portugal.

Se Gouveia e Melo, ou qualquer outro potencial candidato à Presidência, pretende liderar Portugal, tem de perceber que o país não precisa de mais apelos ao sacrifício individual. Precisa de coragem política para reformar as bases da sociedade e garantir que os jovens não sejam obrigados a escolher entre desafios pessoais e uma vida digna. Em vez de discursos de motivação, precisamos de ações concretas: investimentos em setores estratégicos, estímulo à investigação e desenvolvimento e incentivos que tornem o país competitivo para atrair e reter talento.

Portugal merece um futuro construído sobre alicerces sólidos de prosperidade e oportunidade, não sobre o sacrifício contínuo das suas gerações mais jovens. Este país não se constrói com velhos clichés, mas com ideias novas, soluções concretas e a determinação de quebrar os ciclos de estagnação que têm marcado o nosso país. Se o discurso é manter tudo como está, com apelos à resiliência e à superação, então é melhor guardá-lo no baú. Portugal não precisa de líderes que romantizam o sacrifício, mas de quem esteja disposto a trabalhar para que ele deixe de ser necessário.

Este país não devia ser para velhos argumentos, mas para quem tem a ousadia de construir um novo futuro.


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Foto: U.S. Naval War College sob licença CC BY 2.0

Este País não é para Velhos, aproveite a reforma Almirante
Diogo Drummond Borges 11 de março de 2025
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