A causa básica da aversão à existência de Israel é geopolítica: Israel está do lado errado – do lado dos EUA e das potências ocidentais. No entanto, nem sempre foi assim.
“O povo de Israel reconhece à União Soviética o apoio moral que lhe tem dado na ONU. (…) O exército recebeu da Checoslováquia e da Jugoslávia uma grande quantidade de armas (…)” Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, em 1948
Vi fugazmente Mariana Mortágua numa televisão de um lugar público, felizmente sem som, a participar numa manifestação em que se via um cartaz com a frase “Palestina livre do rio até ao mar.” Não sei se quem transportava o cartaz sabia o que isso significa: o rio é o Jordão, o mar é o Mediterrâneo, e a “Palestina livre do rio até ao mar” implica a erradicação total do Estado de Israel.
É altamente improvável que o portador do cartaz soubesse o que a frase implica. Pelo menos, quando se perguntou a manifestantes noutros países que tinham cartazes com a mesma frase na versão original, em inglês (que pelo menos rima: Palestine free from the river to the sea), de que rio se tratava, não faziam ideia, nem sequer sabiam qual era o mar – assim como os Queers for Palestine aparentemente ignoram o tratamento a que seriam submetidos no mundo árabe.
Podemos obviamente ser críticos de Netanyahu, a quem provavelmente convém prolongar a actual guerra em Gaza para evitar processo internos; é razoável condenar a política de construção de colonatos na Cisjordânia; é até legítimo chamar a Gaza uma “prisão a céu aberto”, ou apesar de nunca se referir que uma das paredes dessa “prisão” foi construída pelo Egipto; ou, agora, ter cepticismo em relação ao putativo plano de Trump para a riviera do Médio Oriente. Tudo isto é aceitável, mas não são estas questões políticas que estão em causa nas manifestações contra Israel.
Com mais ou menos ignorância, mais ou menos ingenuidade ou mais ou menos cinismo, o que esta linha de “pensamento” tem em comum é a de que, pura e simplesmente, Israel não devia existir. Porquê? A razão é simples. Pondo de parte o milenar anti-semitismo, que volta e meia vem à tona (e não apenas antissionismo – a oposição ao regresso dos hebreus ao Sião), a causa básica da aversão à existência de Israel é geopolítica: Israel está do lado errado – do lado dos EUA e das potências ocidentais.
No entanto, nem sempre foi assim. Que diriam os portadores de cartazes anti-israelitas se soubessem que a União Soviética foi o principal impulsionador da criação do Estado de Israel?
A URSS foi um dos primeiros países a reconhecer Israel, apenas três dias após a proclamação do novo Estado por Ben Gurion em 4 de Maio de 1948. Já cinco Estados árabes tinham atacado Israel quando o reconhecimento foi feito. Esses cincos Estados queriam eliminar Israel, mas também não tinham qualquer interesse na existência de um Estado palestiniano. O Egipto pretendia dividir a Palestina com a Transjordânia, apesar de temer que o rei Abdallah da Jordânia ficasse com a parte de leão. O então ministro dos negócios estrangeiros libanês confessou ao embaixador soviético Daniil Solod, em Abril de 1948, que o rei Abdallah tinha o sonho de criar a Grande Síria, unificando Síria, Líbano, Transjordânia e toda a Palestina. A Transjordânia não era membro da ONU e, portanto, não tinha qualquer obrigação de seguir as suas orientações.
Para a URSS, todos estes Estados árabes eram “feudal-burgueses”, como se pode ler num relatório de 13 de Abril de 1948 do Ministério dos Negócios Estrangeiros da URSS. Convinha assim aos soviéticos ter uma “democracia popular” naquela zona, um Estado satélite como os das ditaduras comunistas do leste da Europa.
Estaline, em particular, considerava Israel uma criatura sua. Queria uma réplica da experiência na guerra civil espanhola, em que conselheiros militares da URSS dirigiram as operações das brigadas internacionais. Se em Espanha, no final dos anos trinta, tivesse vencido a República, Espanha ter-se-ia tornado mais uma república soviética.
Enquanto Londres fornecia armas aos árabes em grandes quantidades, os hebreus da Palestina não tiveram outra solução senão pedir ajuda militar à URSS, por forma a contornar o embargo de fornecimento de armas a Israel. Aquelas foram indirectamente fornecidas pela URSS através da Checoslováquia, com o assentimento de Andrej Gromyko, na altura responsável das relações externas soviéticas.
Golda Meir (Meyerson, antes de hebraizar o apelido), embaixadora israelita na URSS antes assumir a chefia do governo, veio a reconhecer mais tarde: “Não sabemos se teríamos podido resistir sem as armas e as munições compradas na Checoslováquia e transportadas através da Jugoslávia e os Balcãs, naquele terrível início da guerra.”
Em 1949, Israel foi aceite como membro da ONU, na sequência de grande empenho da URSS.
Vários episódios contribuíram para que esta lua de mel tivesse o seu fim no início dos anos cinquenta. Em 1951 Pavel Eršov, embaixador soviético em Israel, informou Moscovo de que Israel estava “a entrar no campo imperialista dos EUA e da Inglaterra” e propôs que a URSS proibisse a emigração para Israel dos “hebreus provenientes de países da democracia popular.” Foi o que aconteceu. Israel já estava do lado errado e podia ser odiado pela intelectualidade de esquerda.